Falando sobre Missões Indígenas no Brasil!

 

Falar sobre Missões Indígenas é, no mínimo, falar de duas atitudes antagônicas: (1) O grande mover de Deus causado pelo excelente trabalho realizado por missionários independentes, Missões Não-denominacionais, interdenominacionais ou mesmo denominacionais, etc. e (2) a IGREJA inerte, despreocupada e desinteressada e, por incrível que possa parecer em muitos casos, contrária à evangelização dos indígenas e apelando para os conceitos antropológicos pós-modernos pra dizer que não devemos impor nossas verdades à cultura diferente!

Invertendo a ordem anterior, quero falar em primeiro lugar do descaso da Igreja quanto a missões indígenas. É notório que missões nada mais é que o cumprimento do mandamento do Senhor Jesus a seus discípulos: IDE. Todavia, sabemos que se convencionou fazer a diferença entre MISSÃO e MISSÕES. Embora sem respaldo bíblico para isso, dizemos hoje que MISSÃO é o dever da Igreja de evangelizar e implantar o Reino de Deus na cidade ou localidade da congregação (na verdade vemos muitos reinos implantados por igrejas, mas reinos pessoais) e que MISSÕES é o ato de anunciar o evangelho, comissionado ou não por uma igreja, em terras ou culturas ainda não alcançadas.

Missões é o dever máximo da Igreja do Senhor Jesus! Sem o trabalho efetivo em missões estamos sendo desobedientes ao que Jesus diz aos discípulos em Atos 1.8: recebereis poder ao vir sobre vós o Espírito Santo e, sereis minhas testemunhas (mártires) TANTO (ao mesmo tempo) em Jerusalém, Judéia, Samaria e Confins da Terra.

Convencionou-se que: Jerusalém significa nossa cidade e nossos relacionamentos próximos; Judéia significa nosso estado ou país; Samaria significa os excluídos da sociedade e grupos minoritários; e, confins da terra significam lugares distantes fora de nosso país e cultura!

Lembre-se que Jesus não disse que deveríamos priorizar algum grupo ou excluir outro, mas disse que devíamos ir ao mesmo tempo a todos os grupos, isso ele falou porque a tarefa não é pessoal, mas sim coletiva!

A tarefa ou a MISSÃO de implantar o Reino de Deus é COLETIVA! É da IGREJA! É de TODOS OS DISCIPULOS DE JESUS!

Embora isto soe estranho aos ouvidos de muitos na igreja, missões ou a missão da Igreja não é algo para alguns escolhidos e comissionados! Sei que devido ao fato de Jesus ter dito estas palavras aos 11 discípulos, muitos acreditam que ele estava comissionando os “Apóstolos” (que significa “enviados”) e não a IGREJA, ou seja, ele estava comissionando um grupo de pessoas especiais, com dons especiais e missão especial! Isto não é a realidade deste texto, Jesus está dizendo à IGREJA, pois quando chegamos ao Pentecostes, ali no cenáculo, em Jerusalém, reunidos à espera do Espírito Santo não estão apenas os 11 discípulos ou 11 apóstolos, mas, está reunida a IGREJA e esta conta com aproximadamente 120 pessoas, entre homens e mulheres e, o testemunho fiel de que a ordem de Jesus é para a Igreja se confirma no fato de que todos os 120 são cheios do Espírito Santo quando Este se manifesta! A Igreja foi cheia! Não foram apenas os apóstolos que receberam o Espírito Santo, mas toda a Igreja! Assim IDE não é uma ordem exclusiva para alguns comissionados, mas para toda a IGREJA: Recebereis poder e sereis minhas testemunhas ao vir o Espírito Santo!

Bem, a MISSÃO da IGREJA é implantar o reino de Deus e, segundo a ordem de Jesus isto deve ser feito em todos os lugares e ao mesmo tempo! Uns devem pregar em Jerusalém, outros na Judéia, outros em Samaria e outros se esparramarem por todos os lugares, atingindo os rincões mais distantes: OS CONFINS DA TERRA!

Reconheço que temos aqui no Brasil um trabalho muito bom de implantação do Reino de Deus nas Cidades, preferencialmente nas medias e grandes cidades, as pequenas cidades não tem sido alvo de muito trabalho evangelístico!

Reconheço que temos um grande número de missionários espalhados por muitas nações desta terra, cobrindo assim grande parte do planeta e levando em frente o Reino do Senhor Jesus! Temos missionários em países extremamente fechados ao evangelho! Temos missionários doando suas vidas em lugares inóspitos e perigosos correndo o risco de morte, mas estão lá e a IGREJA os enviou e os mantém!

Agora pergunto se trabalhamos como IGREJA para a implantação do Reino de Deus em nossas cidades. Se, enviamos missionários para os lugares mais distantes desta terra, cumprindo assim a ordem de Jesus de irmos a Jerusalém, Judéia e Confins da Terra. Se, temos tanto zelo por isso. Se, somos efetivos neste trabalho, porque SAMARIA tem sido deixado de lado?

Mas, quem é Samaria? Quem são os Samaritanos? Porque Jesus frisa a necessidade de se implantar o Reino de Deus em Samaria? É preciso se recorrer à história e ao contexto da época para compreendermos isto e assim entendermos quem sãos os samaritanos em nosso tempo ou país.

Depois do reinado de Salomão, seu filho Reboão foi um rei que agiu de maneira irresponsável e cruel para com o povo, assim o reino foi dividido, ficando duas tribos sob o comando de Reboão e as outras dez sob o governo de Jeroboão, estas dez tribos formaram o Reino do Norte ou Israel e as outras duas o Reino do Sul ou Judá. Samaria era a capital do Reino do Norte e uma província deste reino.

Como viviam sempre pecando e rejeitando a Deus o Reino do Norte foi invadido pela Assíria, que usava a tática de misturar a população dos reinos conquistados, o rei da Assíria levou israelitas para outros lugares e trouxe pessoas de outros lugares para Israel, isto, a Assíria, fazia para que o povo conquistado perdesse a identidade e tornasse menos provável uma revolta ou retomada da nação.

Na província de Samaria o caso foi diferente; os imigrantes, com a passagem do tempo, adotaram a religião israelita – a maneira de servir o Deus da terra (2 Rs 17.26ss) – e foram completamente assimilados pelos israelitas que não haviam sido exilados; os samaritanos, entretanto, conforme a população da província de Samaria foi posteriormente chamada, foram desprezados como raça mista racial e religiosa pelo povo de Judá, especialmente desde o fim do século VI A.C. em diante”. (O Novo Dicionário da Bíblia, Edições Vida Nova, pg 770, vl 1).

Segundo o contexto que vimos, embora Samaria fosse parte de Israel, era agora no tempo de Jesus, considerada um povo de segunda classe, indigno de ser considerado Judeu, indigno de ser considerado “Povo de Deus”! Lembrem-se os discípulos e de resto toda a IGREJA que se formava era composta por Judeus, das mais variadas correntes religiosas: essênios, fariseus, saduceus e os radicais Zelotes! Estes jamais iriam considerar a possibilidade de salvação para os samaritanos! Mas, o Reino de Deus é universal, o Reino de Deus é para todas as Nações, Povos e Línguas!

Em Atos 8, temos a história de um grande mover de Deus em Samaria, provocado pela pregação e atuação de Filipe, um dos que foram eleitos diáconos, com muitas curas, libertações, conversões e, quando ministrados por Pedro e João, os Samaritanos, foram cheios do Espírito Santo, assim a ordem de Jesus para que os Samaritanos fossem alcançados se cumpriu naquela geração.

Os Samaritanos de hoje são formados por vários grupos, incluindo entre eles os Povos Indígenas, que estão, na maioria das vezes, marginalizados por nossa sociedade opressora! Como povos primitivos são tratados de maneira indigna, não se respeita as particularidades das culturas, da língua e dos costumes. É comum mesmo em nossas igrejas ouvirmos pessoas que acreditam serem os indígenas selvagens e irracionais. É voz esmagadoramente maior que os indígenas são preguiçosos, bêbados e irresponsáveis. E, ainda pior, seguindo a maré da pós-modernidade, onde a verdade é relativa, ou seja, o que é verdade pra um, pode não ser pra outro e vice e versa, ouvindo antropólogos que não tem compromisso com a verdade divina e que tem seus interesses no isolamento dos povos indígenas, muitos na IGREJA acreditam que não se devem evangelizar os indígenas, pois isso vai contra a cultura dos mesmos, eles já tem a sua religião e não existe necessidade de impormos a nossa religião e conceitos religiosos a eles!

É verdade que a evangelização feita em tempos passados em meio aos indígenas foi de fato opressora e maléfica a muitos povos, todavia isto não tenha ocorrido apenas com indígenas, veja o caso da evangelização do Brasil, que foi norte-americanizada ao extremo, não respeitamos sua língua, impomos nosso ponto de vista, obrigamos a se tornarem “cristãos como nós”!

Mas, graças a Deus, hoje o trabalho evangélico em meio aos indígenas é muito diferente disto! Hoje, os missionários são preparados para respeitarem a cultura, língua e costume dos povos para onde são enviados. Hoje, primeiro procuramos entender a cultura e descobrirmos como anunciar a Verdade bíblica, que é supra cultural, sem romper ou com o mínimo de rompimento da cultura primitiva destes povos. Outra coisa que precisamos tem em mente é que CULTURA NÃO É HERMÉTICA OU ESTÁTICA, pelo contrário, a CULTURA É DINÂMICA, FLEXIVEL E ADAPTÁVEL, ou seja, estamos sempre acrescendo ou mudando nossa cultura, e povo que se fecha em sua cultura e não a adapta acaba sendo extinto!

O problema da mudança na cultura ocorre quando se é imposta de fora pra dentro!

Quando o evangelho de forma contextualizada e plena entra na vida do Indígena e os absolutos de Deus são ensinados, certamente muita coisa muda em sua maneira de viver e proceder, assim a cultura também é afetada, mas, como isso acontece de dentro pra fora, não ocorre nenhum rompimento ou ruptura, mas adaptação cultural!

Bem, o que está acontecendo neste exato momento em meio as Tribos Indígenas do Brasil? Como anda o trabalho de implantação do Reino de Deus em nossa SAMARIA?

Graças a Deus, apesar do descaso da maioria da IGREJA, temos um remanescente que tem feito a diferença! Temos um remanescente fiel que tem IDO aos povos indígenas nesta nação!

Pouco conhecido da IGREJA é o fato de que durante a invasão Holandesa no nordeste brasileiro, no período de 1.630 a 1.654 tivemos igrejas indígenas fortes e até pastores indígenas ordenados pela Igreja Cristã Reformada Holandesa, sendo que o Pastor David à Doreslaer foi o primeiro a ser enviado exclusivamente para trabalhar entre os indígenas, tendo bom conhecimento da Língua portuguesa, fixou residência na Aldeia Maurícia, como fruto de seu trabalho a Igreja cresceu, fortaleceu e, como o trabalho era integral, logo surgiu a necessidade de professores indígenas que ensinassem seus compatriotas e foram nomeados os dois primeiros professores indígenas da Igreja Reformada do Brasil os irmão indígenas: João Gonsalves e Melchior Francisco. Foram produzidos também “catecismos” em Tupi, Português e Holandês, os três idiomas falados na Igreja Cristã Reformada no Brasil. Em 1647, o Professor Indígena João Gonsalves, que dentre outros indígenas se destacavam na pregação, foi promovido a “consolador de enfermos” e assim assumiu o trabalho de Evangelista. Podemos dizer sem dúvida que o primeiro indígena a ser consagrado ao sagrado ministério no Brasil o Professor João Gonsalves! Com a derrota dos Holandeses, os portugueses católicos dizimaram os indígenas evangélicos, pondo fim assim a primeira onda de evangelização por reformados dos indígenas brasileiros! Muitos testemunhos existem desta época em registro na Holanda, mas no Brasil quase não se fala nisto. Com a expulsão dos holandeses, infelizmente os portugueses e a liderança da Igreja Católica Romana na época tentaram converterem estes Irmãos Indígenas Reformados ao Catolicismo, com a recusa dos mesmos, os perseguiram até a sua completa extinção! (Schalkwijk, Francisco Leonardo – Índios Evangélicos no Brasil Holandes).

No Século XX, no ano de 1912 se reinicia a história do evangelismo entre os indígenas brasileiros com a Inland South América Missionary Union, que por seu Diretor John Hay, visita as Aldeias Indígenas Terenas no Pantanal Sul-Mato-Grossense e no ano seguinte envia um casal para trabalhar na Aldeia Bananal no distrito de Taunay, município de Aquidauana. No dia 31 de dezembro de 1915, realizou-se o primeiro batismo com 4 candidatos, estando assim iniciada a Igreja Evangélica entre os Terenas, posteriormente, houve a mudança de nome da missão para South America Indian Mission, e finalmente União das Igrejas Evangélicas da américa do Sul (UNIEDAS) uma igreja autóctone que inclusive tem enviado missionários a outros povos indígenas. Hoje além da UNIEDAS atuam nas aldeias Terenas várias outras denominações tanto históricas como tradicionais, entre elas a Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil Terena, fundada pelo Pastor Paulo Coura em 1989 e organizada em dezembro de 2010 com 2 Pastores, 3 Missionários, 4 presbíteros, 15 diáconos, 18 diaconisas e 250 membros, distribuídos pelas congregações nas Aldeias: Argola, Babaçu, Lalima, Moreira e Passarinho, mais os pontos de cultos nas Aldeias: Cachoeirinha e Lagoinha, todas no Município de Miranda-MS.

Como Missão Denominacional a MISPA – Missão Priscila e Áquila, está atuando em 6 etnias no presente momento: Terena, Guarani, Tupi-Guarani, Nambikuara, Paresi e Xavante!

No Brasil várias Missões (Não-denominacionais, Interdenominacionais, Independentes ou denominacionais) estão trabalhando com nossos indígenas, fazendo um trabalho excepcional e maravilhoso: recuperando vidas, transformando miséria e destruição, ensinando a Ler e escrever, estudando e codificando a Língua, fazendo tradução das Escrituras, fazendo gravações das escrituras e histórias bíblicas como apoio a evangelização, (há no mínimo um caso de etnia inteira transformada pelo poder do evangelho (O Povo Dâw, em São Gabriel da Cahoeira-AM), um trabalho realmente notável, mas que infelizmente é em sua quase totalidade financiado por estrangeiros, a IGREJA brasileira participa com muito pouco investimento nesta área.

A Estatística Indígena realizada e apresentada pela AMTB (Associação de Missões Transculturais do Brasil) mostra a realidade triste do avanço do trabalho evangélico em meio aos indígenas brasileiros, veja:

Existência e População

Situação

Nº de Tribos

População

Conhecidas ..(C):

228

377.118

Isoladas ………(I):

30

1.561

A Pesquisar ..(P):

50

2.560

Duvidosas ….(D):

48

2.217

Total

356

383.456

Situação quanto ao evangelho (EVG):

Não alcançadas ……………………………………(N):

66

Alcançadas só por Missões Católicas ……(AC):

26

Alcançadas só por Leigos …………………….(AL):

9

Alcançadas só com Tradução ……………….(AT):

3

Alcançadas só com Missões ………………..(AM):

5

Alcançadas insuficientemente ………………..(AI):

34

Alcançadas satisfatoriamente ………………….(A):

82

Alcançadas e com Liderança Autóctone ….(AA):

20

Situação indeterminada…(?):

13

Total

258

Interpretação pessoal da Estatística

(Pr Paulo Coura)

Total de prováveis tribos

98

Total de Conhecidas e Isoladas

258

Total Geral

356

Igreja Consolidada: (A +AA)

102

Igreja a ser Consolidada: (AL+AT+AM+AI)

51

Conhecidas e Isoladas sem presença missionária evangélica

92

Situação indeterminada

13

Total a Serem Alcançadas entre as Conhecidas e Isoladas

105

A serem alcançadas entre as prováveis

98

Total Geral a ser alcançadas

203

Desafio da Igreja Brasileira

Tribos a Consolidar a Igreja

51

Alcançar

203

Baseado nos números acima, acredito que está na hora da IGREJA brasileira acordar para a realidade e necessidade das missões indígenas, necessidades estas que vão do apoio financeiro ao cuidado pastoral dos missionários e de nossos povos indígenas. Poucos povos indígenas brasileiros têm condições de terem uma igreja verdadeiramente autóctone, pelo pequeno número de indivíduos, pela dificuldade de financiamento da igreja, etc. Assim é necessário que a IGREJA brasileira adote estes povos, deem a eles suporte para evangelizar e manter a igreja, ajudando na intercessão, manutenção e discipulado, oferecendo liberdade de liturgia, contextualização da Palavra e muito amor, sim, é preciso que a IGREJA brasileira mostre, ou demonstre o amor de Deus em relação aos povos indígenas, lutando contra o preconceito racial, contra o separatismo, contra acepção de pessoas, sendo uma igreja amorosa e operante no amor!

Sonho com uma igreja compromissada com a MISSÃO que recebeu do Senhor Jesus! Comprometida com a integralidade desta missão, como definido em Lausane “O Evangelho TODO, para o Homem TODO e para TODOS os homens”! Pois, só assim cumpriremos o Mandamento do Senhor Jesus e estaremos prontos para recebê-lo em sua segunda vinda!

Que Deus desperte a IGREJA, seu povo e seus líderes para esta tarefa inacabada!

Que Deus levante Obreiros para a Seara que já está branca e pronta para a Colheita!

Que Deus inunde nossos corações com o verdadeiro AMOR, que é sacrificial e universal, para que evangelizemos com atitudes e presença, tanto em JERUSALÉM, como em toda a JUDÉIA e SAMARIA e até os confins da Terra!

Paulo Coura, 51anos           

Pastor da Igreja Presbiteriana Renovada de Anastácio-MS

Supervisor de Missões Indígenas da MISPA

Anúncios