Mais do mesmo: nova reunião para discutir-se política indígena – Braulia Ribeiro

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O governo PT convocou mais uma reunião para que a “sociedade” debata a questão indígena. Os convidados são as tradicionais ONG’s que já mamam nas tetas do indigenismo, lideranças indígenas e ao que parece até algumas missões religiosas.

Será que sai alguma coisa boa desta reunião? Infelizmente não tenho muita esperança de que aconteça alguma mudança para melhor depois desta discussão. Talvez seja cinismo, talvez seja a objetividade que a distância geográfica e cultural me permite ter sobre a questão. Alisto aqui meus motivos e peço oração por meus valentes irmãos e irmãs que estarão envolvidos na discussão. A oração é essencial para que alguma coisa possa resultar do evento.

– Não há liberdade sem responsabilidade:  – Indígenas brasileiros querem liberdade religiosa, liberdade em alguns termos da tutela que lhes foi imposta pela legislação da FUNAI. Mas a maioria não quer o fim da tutela. Por que? Muitos temem que sem a tutela, que implica em um comprometimento maior do governo em preservar o “bem estar” dos indígenas,  serão esquecidos, e quem sabe explorados, abusados e desrespeitados. Temem também serem submetidos a mesma legislação criminal que os demais brasileiros.   Minha opinião? Liberdade sem responsabilidade não existe. Vocês querem ser tratados com respeito, líderes indígenas? Querem o direito de preservar a cultura mas também o de mudar o que é necessário? Querem ser respeitados e ouvidos como adultos, e não apenas bibelôs culturais de estimação? Exijam o fim da tutela. Sem pagar o preço de se tornarem responsáveis adultos civis não haverá liberdade nem respeito pela população indígena.

A tutela é um absurdo jurídico e humano sem precedentes em qualquer país do mundo. É um absurdo tão asqueroso quanto o apartheid sul-africano. A tutela presume a falta de capacidade humana básica no indígena. O que é ser humano, não é a constante capacidade de observação e crescimento? Não é a oportunidade para o diálogo, para o sonho, para o futuro?

Ser humano não é peça de museu.

Infelizmente neste Brasil de hoje, até os índios se vêem assim.

Pergunto a meus amigos indígenas que me lêem. Em que a tutela ajuda seu povo? Encobre bandidos e criminosos da justiça. Permite um assenhoramento dos funcionários ignorantes e sedentos de poder da Funai as aldeias. O chefe da sua aldeia meu filho, não é você. É o chefe de posto, o diretor da Funai, o fulano, o cicrano com cargo público.

Enquanto vocês líderes indígenas se acomodarem a este abuso a população indígena não será livre nem terá direito ao futuro.

– As missões se calam por conveniência e medo. Além da própria Funai e da Funasa e dos próprios indígenas os únicos que tem um conhecimento da situação inloco são os missionários. Quem é que foi missionário, como eu, que não presenciou os abusos, os despautérios cometidos contra os indígenas pelo governo? Tendo atravessado 4 décadas já o movimento missionário brasileiro já colheu informações suficientes para levar a Funai dez vezes para tribunais internacionais. Por que então continuamos calados, tolerando, permitindo o desastre sem reação? Porque não queremos perder nosso espaço nas áreas? Porque vamos perder prestígio com a liderança indígena? Porque temos compromisso ideológico com o governo que aí está?  Todas as alternativas acima?

– A Funai é:

Mal preparada para o trabalho. O nível de  capacitação e apoio de seus funcionários é muito baixo. Não existe consistência ideológica a não ser a da conveniência.

Mal intencionada. Muitas vezes intenções pessoais de enriquecimento se confundem no campo com decisões em “favor dos indígenas”. Muitas vezes em Brasília os interesses do partido e do “país” massacram a possibilidade de sanidade na política indígena, colorindo com ideologia o que deveria ser uma questão puramente humana.

Condenada por sua própria história. Examinem a história dos últimos anos de indigenismo os que duvidam do que estou dizendo. É uma história de fracassos, abuso, falta de capacidade, má administração e conivência dos que poderiam denunciá-la.

– A reunião de “consulta” é apenas um engodo. A verdade é que o documento já vem pronto, as pautas discutidas são apenas superficiais e indicadas para tirar a atenção do que é importante no documento. No final o que o governo quer é apenas legitimar decisões que serão impostas goela abaixo a todos os envolvidos e que só geram resultados positivos para o próprio governo.

É isto o que você quer indígena brasileiro? Continuar sendo rejeitado, oprimido, tratado como menos-humano, infantilizado?  Continue calado.

Por Braulia Ribeiro

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